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Setembro indígena reverbera a memória da Zona da Mata


Evento realizado na UNIRIO, no Rio de Janeiro, reúne representantes de diversas etnias e dialoga com a presença histórica e contemporânea dos povos originários em Minas Gerais

Por Adryana Ryal Petara Laman.
Segunda-feira, 07 de setembro de 2026 12:28


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Foto ilustrativa gerada por IA

Quem disse que não existem indígenas no Sudeste? Quem disse que os indígenas não estão nas universidades, nas artes e na produção científica?

As perguntas que inspiram o Setembro Indígena — NEPAA/UNIRIO, realizado de 8 a 21 de setembro, no Rio de Janeiro, também dizem respeito diretamente a Minas Gerais — especialmente à Zona da Mata, território historicamente ligado ao povo Puri.

Entre os participantes do evento estão indígenas que se apresentam como pertencentes a esse povo, como Diego Nogueira Xavier Puri, Hiram Apon Puri, Dauá Puri, Ryal Petara Laman Puri e Thais Guerra Afro-Indígena Puri.

Essa presença cria uma ponte entre a programação realizada na capital fluminense e a história da região de Juiz de Fora.

Durante muito tempo, a narrativa oficial tratou os Puri como um povo desaparecido ou assimilado pelo processo de colonização. Nas últimas décadas, porém, movimentos de retomada étnica e cultural vêm reafirmando sua existência, recuperando memórias, vínculos familiares, conhecimentos e formas próprias de identidade.

A presença Puri permanece registrada na história, na cultura e até nos espaços da Universidade Federal de Juiz de Fora. No Jardim Botânico da UFJF, três galerias de arte receberam nomes de palavras relacionadas a esse povo: Tchóre, que significa mato; Mehtl’on, traduzida como força; e Tlegapé, que representa luta.

Em 2025, a Faculdade de Comunicação da UFJF também recebeu uma atividade sobre saberes ancestrais e academia com a participação da atriz, produtora cultural e pesquisadora Adryana Ryal, conhecida como Petara Puri. Ela integra um movimento dedicado ao resgate e à valorização da presença Puri na Zona da Mata.

É nesse contexto que o Setembro Indígena ganha interesse para o público mineiro. Embora aconteça no Rio de Janeiro, o evento não se limita a uma agenda cultural distante. Ele recoloca em discussão uma história compartilhada por territórios de Minas e do Rio e questiona o apagamento dos povos originários no Sudeste.

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Evento no Museu da Cultura Puri no Rio de Janeiro. Na foto Diego Nogueira, Amanda Nogueira, Niara do Sol, Ryal Petara Laman, Dauá Puri

Promovida pelo Núcleo de Estudos de Performances Afro-Ameríndias (NEPAA), da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), a programação reúne artistas, pesquisadores, lideranças e convidados de diferentes etnias.

Serão duas semanas de teatro, performances, música, literatura, artes visuais, exposição de artesanato, palestras, rodas de conversa, encontros, saberes tradicionais e produção acadêmica.

Criado em 1998 pelo professor Zeca Ligièro, o NEPAA desenvolve atividades de pesquisa, ensino e extensão relacionadas às culturas e performances afro-brasileiras e ameríndias.

Mais do que promover uma programação sobre os povos indígenas, o evento pretende assegurar o protagonismo dos próprios indígenas como pesquisadores, artistas, pensadores, diretores, gestores, mestres, lideranças e produtores de conhecimento.

Além dos representantes Puri, participam Danilo Canindé, Gabriela Popana Miri, Yumo Apurinã, Igor Rocha Ribeirinho Mebêngôkre, Sol Jaci, Marcella Francelina Tupi Guarani, Sandra Benites Guarani Nhandeva, Melissa Xakriabá e Gisele Mayõ Pataxó.

Minas Gerais possui 36.699 pessoas indígenas, segundo o Censo Demográfico de 2022. A estatística ajuda a contestar a ideia de que os povos originários pertencem somente ao passado, à Amazônia ou a comunidades afastadas dos centros urbanos.

Eles estão nas cidades, nas universidades, nas artes, nas escolas, nos movimentos sociais e em seus territórios. Produzem conhecimento e novas maneiras de narrar o Brasil sem abandonar a ancestralidade.

O Setembro Indígena também se aproxima do Dia Internacional da Mulher Indígena, celebrado em 5 de setembro. A data homenageia Bartolina Sisa, liderança aimará que se tornou símbolo da resistência indígena contra o colonialismo e da luta das mulheres originárias.

Ao reunir diferentes vozes dentro de uma universidade, o evento propõe um deslocamento importante: os indígenas não aparecem apenas como objetos de estudo, mas como sujeitos de suas próprias histórias e protagonistas da produção cultural, artística e acadêmica.

A proposta é transformar a universidade em lugar de encontro, visibilidade e permanência, onde diferentes conhecimentos possam dialogar sem que um deles precise silenciar o outro.

Escutar também é uma forma de reconhecer território. E reconhecer território significa compreender que a presença indígena não começou quando a universidade decidiu estudá-la.

Ela estava aqui antes.

O Setembro Indígena apresenta-se, portanto, como um gesto de presença e resistência. Um convite para que a comunidade acadêmica e a sociedade voltem os olhos para aquilo que, durante muito tempo, foi colocado à margem.

Não se trata de dar voz a quem sempre teve voz. Trata-se de abrir espaço para escutar aqueles que, historicamente, foram impedidos de ser ouvidos.

De 8 a 21 de setembro, a UNIRIO será atravessada por diferentes corpos, memórias, narrativas e ancestralidades.

Será tempo de acolher, escutar e aprender.

Programação completa abaixo.:

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