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O sussurro das asas


A primavera ainda nem chegou, mas já manda seus recados: no canto dos sabiás, nas flores do manacá e até no encontro amoroso de duas borboletas. Ao se agachar para observar uma delas, Maria Luiza Stehling dos Sa

Por Maria Luiza Stehling dos Santos Matéria 3
Sábado, 05 de setembro de 2026 06:26


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O sussurro das asas

A primavera anunciou que está chegando. Com ela, chegou o canto e o gorjeio dos sabiás. Tiu-liu-liu... tiu-liu-liu. fiu....

E hoje eu vi, com o perdão da redundância, com meus próprios olhos, uma borboleta se contorcendo no chão.Passou uma mulher empurrando um carrinho de bebê e comentou:

-Acho que ela bateu nesse pé de manacá e capotou!

Olhei bem de perto. Para isso, precisei me agachar até o chão. Desse ângulo, percebi que eram, na verdade, duas borboletas, uma montada sobre a outra. Fiquei encantada com aquela conjunção, pensando no que os animais fazem para sobreviver.

Da crisálida à borboleta, da borboleta à larva, num ciclo incessante.Lembrei-me de um quadro que ficava na parede da nossa sala de estudos, nos tempos de adolescência. Não sei se meus pais sabiam que eram butterflies em cópula — ou seja, duas borboletas transando. Não existe "borboleto" nem "borboletes". É um substantivo epiceno, segundo a classificação de gênero da gramática. Bem mais fácil de entender do que o LGBTQIetc+.

Para os íntimos, ‘o’ borboleta talvez estivesse por cima. Mas as feministas preferem ‘de ladinho’. estando em outra posição. Borboletas não têm crises epiléticas, mas estremecem inteiras ao copular. E como cantava Elza Soares: os cidadãos no Japão fazem, lá na China um bilhão fazem. Os animais fazem, e ela ordenava: "Façamos, vamos amar!".

Só que está difícil amar no momento. Há muito cansaço, dívidas, medos, indisponibilidade, ausências e desconfiança.

Além dos noticiários, que nem disfarçam mais as evidências. Ou disfarçam ?

São sentimentos e fatos, que roubam a cena, e que podem levar à impotência.

Contra tudo isso, resiste a primavera! Ela irradia seu perfume, encanta nossos olhos e poliniza o coração. Os pistilos e androceus estarão eretos.

A primavera ainda chegará antes da eleição — prepare-se! Virá com cores e flores que rimam com beleza e leveza. Em tempos de indecisões, até os verbos de ligação tornam-se suspeitos. Aqueles mesmos que aprendemos no ensino fundamental: ser, estar, permanecer, ficar, continuar... andar… 

Hoje em dia, a gente mal sabe, ao certo, se está "sendo" ou apenas "ficando" com alguém. Será que o tinder, a IA ou o Padre Patrick sabem ? Tem gente que está até andando com o marido das outras!!

Vamos, por ora, eleger a primavera, que desabrocha logo após o Dia da Árvore, em 21 de setembro. É hora de estacionar nossos cinco sentidos e celebrar a constância e previsibilidade das estações.  Como somos incansáveis captadores do mundo , sigamos buscando significados, além das cumplicidades e arranjos convenientes. Deixemos os olhos bem abertos para as borboletas. Afinal, testemunhar sua reprodução não é algo que se vê todo dia.

É preciso se agachar, colocar-se à altura de seres que batem suas asas delicadas, não para voar, mas para se amar. E, nesse sussurro de asas, mostram que confiam nas larvas que virão depois delas.

Que cor terão as asas das pulpas  que vão nascer?

Será que elas tem medo do percurso que terão que fazer até cair no chão, feito loucas, num possível movimento convulsivo? 

A vida é mesmo surpreendente.

Até a próxima minha gente!


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