RESPIRAR PARA APRENDER: YOGA, MEDITAÇÃO E EDUCAÇÃO
Uma criança pode agradecer pela mãe, outra pelo amigo, pelo cachorro, pela comida, pela chuva, pelo sol ou por alguém que brincou com ela. A partir dessas respostas, surgem oportunidades para conversar sobre família, amizade, natureza, comunidade, respeito e sobre a importância de cada pessoa no mundo.Por Paula Garcia
Sábado, 05 de setembro de 2026 05:51Por Paula Garcia
A escola ensina a ler, escrever, calcular e interpretar o mundo. Mas será que também ensina as crianças a respirar, perceber seus sentimentos, cuidar do corpo e estar presentes?
A pergunta pode parecer estranha. Afinal, respirar é algo que fazemos naturalmente desde o nascimento. Mas existe uma diferença entre simplesmente respirar e perceber a própria respiração. Há uma diferença também entre estar fisicamente em determinado lugar e conseguir, de fato, estar presente nele.
Em uma sociedade marcada pela pressa, pelo excesso de estímulos e pela presença constante das telas, até as crianças parecem viver em ritmo acelerado. São imagens, sons, jogos, vídeos e informações que se sucedem rapidamente. Muitas vezes, esse movimento continua quando elas chegam à escola, justamente onde precisam encontrar condições para ouvir, observar, interagir e aprender.
É nesse contexto que práticas de respiração, meditação, relaxamento e movimentos inspirados na yoga podem contribuir para uma educação mais integral e humanizada.
Na Educação Infantil, evidentemente, nada disso precisa assumir a forma de uma atividade rígida ou de longos exercícios de concentração. Ao contrário: quanto mais lúdica a experiência, mais próxima estará do universo da criança.
Pode-se respirar imaginando o perfume de uma flor e depois soprar lentamente uma vela. O corpo pode se transformar em uma árvore que procura equilíbrio, em um gato que se espreguiça ou em uma borboleta que movimenta as asas. Em outros momentos, a proposta pode ser simplesmente fechar os olhos por alguns segundos e descobrir quantos sons existem ao redor.
São experiências aparentemente pequenas. Para uma criança, entretanto, parar por alguns instantes e perceber a própria respiração, o corpo e aquilo que acontece à sua volta pode representar uma descoberta importante.
A meditação, quando adequada à idade, também não precisa significar longos períodos de silêncio ou imobilidade. Pode ser simplesmente um exercício de parar, respirar e observar. Aos poucos, a criança descobre que nem todo silêncio é vazio. Há um silêncio no qual é possível perceber o próprio corpo, organizar pensamentos e reconhecer sentimentos.
Em meu trabalho com as crianças, procuro desenvolver também a gratidão e o sentimento de pertencimento. Uma pergunta muito simples — “pelo que você é grato hoje?” — pode produzir respostas capazes de revelar um universo.
Uma criança pode agradecer pela mãe, outra pelo amigo, pelo cachorro, pela comida, pela chuva, pelo sol ou por alguém que brincou com ela. A partir dessas respostas, surgem oportunidades para conversar sobre família, amizade, natureza, comunidade, respeito e sobre a importância de cada pessoa no mundo.
Como professora da Rede Municipal de Ensino de Juiz de Fora, venho incorporando essas experiências ao meu cotidiano pedagógico na periferia da cidade.
Dentro da autonomia do trabalho pedagógico, desenvolvo aulas de yoga e respiração, além de momentos de relaxamento. Não se trata de substituir conteúdos ou transformar a escola em um espaço terapêutico. A proposta é acrescentar ao cotidiano escolar ferramentas que possam favorecer a relação da criança consigo mesma, com os colegas e com o ambiente em que aprende.
Tenho observado que, após essas práticas, as crianças se mostram mais disponíveis para ouvir, participar e direcionar a atenção às atividades. Muitas demonstram prazer nesses momentos e, gradativamente, começam a compreender que podem recorrer à respiração e à pausa quando estão agitadas ou precisam reorganizar a atenção.
Essas percepções não são apenas minhas. Também vêm sendo compartilhadas positivamente pela direção, pela coordenação e por outros professores que acompanham o cotidiano das crianças.
É importante, entretanto, evitar promessas exageradas.
Yoga, meditação ou exercícios respiratórios não resolvem, sozinhos, dificuldades de aprendizagem, problemas emocionais ou questões sociais que chegam diariamente às escolas. Tampouco substituem acompanhamento especializado quando ele é necessário.
São ferramentas. E ferramentas precisam ser utilizadas com conhecimento, sensibilidade e respeito às características de cada criança.
A ciência apresenta resultados promissores sobre os possíveis benefícios dessas práticas para a atenção, a autorregulação e o bem-estar infantil, embora ainda sejam necessários mais estudos. Na educação, como em qualquer área que envolve o desenvolvimento humano, entusiasmo e responsabilidade precisam caminhar juntos.
Há ainda uma dimensão que considero especialmente importante. Quando a escola ensina uma criança a reconhecer o que sente, perceber o próprio corpo e respeitar seus limites e os limites do outro, não está apenas favorecendo a aprendizagem daquele dia. Está contribuindo para a formação de uma pessoa mais consciente de si e de suas relações.
Por isso, defendo que a respiração, o movimento, o relaxamento e as práticas de atenção sejam cada vez mais discutidos e incorporados à Educação Básica, sempre respeitando a idade, a individualidade e o contexto de cada criança.
A escola precisa ensinar português, matemática, ciências, história, arte e tantas outras formas de compreender o mundo. Mas talvez também possa reservar
alguns minutos para ensinar algo que acompanhará a criança por toda a vida: perceber quando é hora de diminuir o ritmo, respirar e voltar a si mesma.
Educar não é apenas transmitir conteúdos. É ajudar a formar seres humanos capazes de conhecer o próprio corpo, reconhecer suas emoções, cuidar de si, respeitar o outro e compreender que fazem parte de algo maior — a família, a comunidade, a natureza e o mundo.
Talvez uma das primeiras lições de uma educação verdadeiramente humanizada seja justamente esta:
Parar. Respirar. Sentir. Agradecer. Estar presente. Pertencer.
*Paula Garcia - Professora da Rede Municipal de Ensino de Juiz de Fora