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Colunista

Senhora do destino


Há escolhas que fazemos e acontecimentos que parecem nos escolhem.

Por Luiza Stehling
Quinta-feira, 27 de agosto de 2026 09:42


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Naquela manhã, minha mãe me fez uma pergunta que parecia simples, mas carregava o peso de uma vida inteira:

— Luiza, você acredita em destino?

Eu parei. Porque responder sim era admitir que nem tudo dependia de mim. Responder não, era fingir que a vontade bastava para impedir as perdas, os encontros inesperados, as mudanças de rumo. Entre uma coisa e outra, fiquei em silêncio por alguns segundos.

— Olha, mãe, não tenho certeza. Não tenho provas de que o destino exista, muito menos de que seja ele quem comanda a nossa vida. Mas posso acreditar que sim…

Ela então vem com aquela sabedoria que só as mães sabem:

— Mas cê tem que acreditar, sabe por quê? Porque, se a gente não acreditasse em destino, só ia ter coisa boa na vida.

E é aí que começa a conversa.

Talvez destino seja justamente aquilo que acontece quando a nossa vontade predomina.

A gente planeja escolhe, deseja, luta. E, ainda assim, há coisas que chegam sem pedir licença. Algumas são bênçãos. Outras, infortúnios. Algumas nos encontram no meio do caminho e mudam completamente a direção da estrada.

Há escolhas que fazemos e acontecimentos que parecem nos escolhem.

Destino pode ser essa injunção que cai sobre nós sem que tenhamos pedido. Não nos deixa alternativa, apenas a difícil tarefa de aceitar, renunciar, reconstruir. Nem sempre o desejo, exercido em nome do livre-arbítrio, consegue colocar a rédea da vida em nossas mãos.

E então penso na sorte: em que ponto ela se encontra com a vontade? Talvez a vida seja um grande tabuleiro de xadrez, no qual gostaríamos de conhecer todas as regras, prever os movimentos e saber quando avançar ou recuar. Mas o jogo muda enquanto jogamos, e nem sempre enxergamos a consequência de cada lance.

Às vezes, andamos distraídos. Estávamos indo para um lado e, por alguma razão, desviamos: entramos numa conversa, abrimos uma mensagem, atendemos um telefonema, perdemos a concentração. Aquele pequeno desvio, aparentemente insignificante, pode alterar alguma coisa.

Hoje se fala tanto em falta de foco e excesso de estímulos. O celular chama, o WhatsApp interrompe, uma mensagem puxa outra e, quando percebemos, estamos longe daquilo que pretendíamos fazer. Ainda assim, nem toda distração precisa ser vista como desperdício. Algumas podem abrir caminhos que não teríamos encontrado de outro modo.

Também dizem: “joga para o universo.” A frase sugere uma confiança difícil de explicar: lançamos nossos desejos, medos e esperanças para algum lugar e aguardamos uma resposta. Talvez esse universo seja menos uma entidade que realiza pedidos e mais o nome que damos ao conjunto de forças que não controlamos.

Penso na velha expressão “Senhora do Destino”. Podemos ser, em alguma medida, senhores do nosso próprio caminho? Acredito que sim, desde que reconheçamos os instrumentos de que dispomos: concentração, foco, desejo, coragem e a capacidade de enfrentar aquilo que, dentro de nós, muitas vezes trabalha contra nós mesmos.

Freud chamou de Eros e Tânatos essas duas forças que parecem habitar a condição humana: uma ligada à vida, ao amor, à criação; outra, à destruição, à morte. Às vezes, queremos viver e, ao mesmo tempo, alguma coisa dentro de nós parece desistir. Quem abandona a luta antes de começar dificilmente consegue transformar a própria trajetória.

Por isso, não se trata apenas de destino, mas também de recursos. Às vezes, precisamos de uma conversa; outras vezes, de uma terapia, de uma psicanálise, de um livro ou de uma palavra amiga. Há quem encontre força na oração, numa igreja, num pastor, num santo, numa fé silenciosa que ninguém vê, mas que sustenta.

Talvez ninguém atravesse sozinho aquilo que lhe cabe viver. Levamos conosco nossa história, nossos medos, nossa fé e as pessoas que caminham ao nosso lado.

Volto então à pergunta da minha mãe:

— Luiza, você acredita em destino?

Hoje eu talvez respondesse:

— Mãe, não sei se acredito que o destino manda em tudo. Mas acredito que há coisas que não escolhemos. E, principalmente, que, mesmo quando não podemos decidir o que nos acontece, ainda podemos escolher o que faremos com isso.

Talvez aí more a nossa pequena e preciosa liberdade: no intervalo entre o que chega e a maneira como respondemos. É nessa margem estreita, entre o acaso e a ação, que a vida começa a ser nossa.


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