O conhecimento profissional deve servir para aproximar
Na Educação Infantil, brincar, acolher, ouvir, cuidar e estabelecer vínculos não são ações secundárias.Por Professora Paula Garcia
Segunda-feira, 24 de agosto de 2026 18:04Humanescer na Educação Infantil significa compreender que, antes de ser aluno, cada criança é um sujeito que possui uma história, sentimentos, necessidades, medos, sonhos e uma realidade social que não pode ser ignorada dentro da escola. Humanizar é olhar para a criança para além de suas dificuldades de aprendizagem, de seu comportamento ou de sua condição social. É enxergá-la em sua totalidade.
Na Educação Infantil, brincar, acolher, ouvir, cuidar e estabelecer vínculos não são ações secundárias. São caminhos fundamentais para o desenvolvimento e para a aprendizagem. Uma pesquisa publicada em 2024 na Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos, ao discutir a didática na Educação Infantil, destaca o brincar como atividade fundamental para o desenvolvimento infantil e relaciona a prática pedagógica à humanização da criança.
Essa discussão se torna ainda mais necessária quando pensamos nas crianças que vivem em territórios periféricos e em situações de vulnerabilidade social. Algumas chegam à escola carregando necessidades que muitas vezes não aparecem nos cadernos: fome, insegurança, conflitos familiares, falta de recursos, ausência de espaços adequados para brincar e tantas outras privações. Segundo o UNICEF, 28,8 milhões de crianças e adolescentes viviam no Brasil, em 2023, em situação de pobreza multidimensional, considerando dimensões como renda, educação, moradia, saneamento, água, informação e segurança alimentar.
Por isso, não podemos olhar para uma criança que chega à escola sem determinados conhecimentos e imediatamente concluir que ela é “fraca”, “desinteressada” ou “incapaz”. Antes de perguntar por que ela ainda não aprendeu o ABC, talvez seja necessário perguntar: ela teve condições para aprender? Está com fome? Sente-se segura? Alguém a ouviu hoje? Ela se sente pertencente àquele espaço?
É preciso cuidado, entretanto, para não transformar a pobreza em incapacidade. A criança da periferia não é menos inteligente, menos capaz ou menos potente. Ela pode apenas chegar à escola trazendo experiências e desafios diferentes daqueles vividos por outras crianças. Cabe à escola reconhecer essas diferenças sem reduzir suas expectativas em relação a elas.
Nesse sentido, humanescer também significa que o professor precisa exercitar a empatia. Nem todo educador viveu a experiência de abrir a geladeira e não encontrar alimento, de vestir uma roupa simples por falta de opção ou de chegar à escola preocupado com problemas que ultrapassam os muros da instituição. Mas, mesmo que nunca tenha vivido essas experiências, pode — e deve — desenvolver a capacidade de compreender que elas existem.
A autoridade pedagógica não pode ser confundida com superioridade. Um diploma, um concurso público ou o domínio de determinado conteúdo não tornam o professor superior à criança. O conhecimento profissional deve servir para aproximar, compreender e ampliar possibilidades, e não para humilhar, estigmatizar ou rotular.
Quando o professor entra na sala de aula acreditando que todas as crianças precisam aprender da mesma maneira, no mesmo tempo e a partir das mesmas experiências, corre o risco de transformar a diferença em deficiência. Humanizar é justamente romper com esse olhar.
Os atuais Parâmetros Nacionais de Qualidade e Equidade da Educação Infantil reforçam a necessidade de considerar a diversidade das realidades e culturas presentes nas instituições, articulando cuidado, brincar, interação, proteção dos direitos das crianças e diálogo com as famílias.
Portanto, acolher não significa deixar de ensinar. Significa preparar o terreno para que o ensino aconteça. Uma criança que se sente respeitada, segura e pertencente tem maiores possibilidades de participar, brincar, perguntar, experimentar e aprender.
Humanescer é olhar nos olhos antes de olhar para a atividade. É conhecer a criança antes de julgá-la. É compreender o silêncio antes de classificá-lo como desinteresse. É perceber o comportamento antes de transformá-lo em rótulo. É reconhecer a diferença sem convertê-la em desigualdade.
Mais do que ensinar conteúdos, humanescer é criar condições para que a criança descubra que pode aprender. É fazer da escola não apenas um lugar de transmissão de conhecimentos, mas também um espaço de pertencimento, proteção, descoberta e construção de possibilidades.
Porque, na Educação Infantil, antes de ensinar uma criança a conhecer o mundo, é preciso ajudá-la a sentir que o mundo também pode ser um lugar onde ela pertence.