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Colunista

Quando a natureza nos ensina a misturar saberes


Crianças mineiras conheceriam o universo marinho, as algas, as baleias, os manguezais e os saberes tradicionais. Crianças do litoral conheceriam os rios, as montanhas, as nascentes, as matas e a vida presente no interior de Minas.

Por Por Paula Garcia — Professora, Professora de Yoga Infantil, Psicopedagoga, Massoterapeuta e Pesquisa
Sexta-feira, 11 de setembro de 2026 19:46


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Falar sobre consciência ambiental desde a infância ainda significa, muitas vezes, abordar o tema de maneira superficial nas escolas. Plantar uma árvore, separar o lixo ou fazer um desenho sobre a natureza são ações importantes, mas podemos ir muito além. Precisamos permitir que nossas crianças conheçam, sintam, vivenciem e compreendam a natureza da qual fazem parte.

Como professora da rede pública, especialmente no trabalho com crianças da periferia, percebo um desafio: como falar sobre o mar para uma criança que nunca o viu? Como explicar o que são uma alga, uma baleia ou um recife de coral a quem nunca teve contato com esses elementos? Muitas vezes, apresentamos imagens, vídeos e textos, mas o conhecimento permanece distante da experiência.

Essa reflexão ganhou outro significado quando estive em Prado, na Bahia. Ao observar uma criança indígena vendendo pássaros feitos de madeira e sementes, fiquei profundamente tocada. Ela não estava apenas comercializando um objeto. Havia, naquele gesto, uma relação com a natureza, a cultura e os saberes de seu território. As sementes tinham uma história. Os pássaros expressavam pertencimento.

Então pensei nas crianças de Minas Gerais e nas crianças indígenas do litoral: o que aconteceria se esses mundos pudessem trocar conhecimentos?

Juiz de Fora e Prado estão geograficamente distantes, mas são conectados pela própria natureza. Os rios que nascem em Minas percorrem longos caminhos, encontram outros rios e, finalmente, chegam ao mar. A água não conhece fronteiras administrativas. Ela se mistura.

Por que nós, na educação, não podemos fazer o mesmo?

Um projeto de intercâmbio entre municípios poderia transformar essas diferenças em uma enorme sala de aula. Crianças mineiras conheceriam o universo marinho, as algas, as baleias, os manguezais e os saberes tradicionais. Crianças do litoral conheceriam os rios, as montanhas, as nascentes, as matas e a vida presente no interior de Minas.

Poderíamos criar cartas, vídeos, desenhos, pesquisas, encontros virtuais, exposições, viagens pedagógicas e projetos científicos. Cada território seria, ao mesmo tempo, professor e aprendiz.

Nesse processo, surge uma palavra fundamental: diversidade.

Diversidade não deve ser apenas um conteúdo escrito no planejamento escolar. Ela precisa ser vivida. É reconhecer que uma criança da periferia, uma criança indígena, uma criança do campo ou uma criança do litoral possui conhecimentos próprios — e que nenhum deles precisa ser colocado acima dos demais.

Precisamos construir uma educação que ensine a criança a olhar para uma semente e perguntar: de onde ela veio? Quem conhece sua história? Como devemos preservá-la? Uma educação que a ensine a olhar para um rio e compreender que sua história não termina naquele município; que a faça perceber que o mar, embora distante, também faz parte de sua existência.

Talvez a verdadeira consciência ambiental comece quando a criança deixa de enxergar a natureza como algo que está “lá fora” e passa a compreender que ela também é natureza.

Imagino uma parceria entre duas cidades maravilhosas, unidas por projetos de pesquisa, cultura, arte, natureza e educação: crianças trocando saberes, professores construindo conhecimentos em conjunto e comunidades compartilhando suas histórias.

Seria uma educação feita de encontros.

Uma educação com amor, troca, sabedoria e diversidade.

A natureza já nos ensina, há milhares de anos, que ninguém existe sozinho. Os rios encontram outros rios. As sementes viajam. As águas se misturam. As florestas se conectam. Diferentes formas de vida constroem, juntas, um mesmo planeta.

Talvez esteja na hora de a educação aprender com ela.


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