Voto não tem preço; tem valor e consequências
Cuidado com as cortinas de fumaça, que não nos permitem enxergar a cor do céu.Por Luiza Stehling
Sexta-feira, 11 de setembro de 2026 19:22Esse comportamento pode estar associado à dissonância cognitiva: o desconforto provocado pelo conflito entre nossas convicções e os fatos. Para não admitir que fomos enganados, procuramos justificativas que preservem aquilo em que desejamos acreditar.
“Eu não gosto de política!”, dizem muitos. Outros nem querem ouvir falar no assunto. Alguns chegam a repetir notícias falsas para proteger seus candidatos, dissimulando, enganando e ludibriando. Constroem argumentos defensivos e os transformam em verdades incontestáveis, ainda que sejam esdrúxulos, antiéticos e desprovidos de racionalidade ou senso de justiça — e mesmo que não atendam aos verdadeiros propósitos de desenvolvimento da sociedade.
Esse comportamento pode estar associado à dissonância cognitiva: o desconforto provocado pelo conflito entre nossas convicções e os fatos. Para não admitir que fomos enganados, procuramos justificativas que preservem aquilo em que desejamos acreditar. E, quando percebemos o engano, mas nos fazemos de mortos, deixamos morrer também a esperança de um futuro mais previsível e confiável.
Tentarei explicar algo que nos confunde bastante. Para um bom entendedor, um pingo é letra — mas nem sempre.
Onde fica a rua do Mercado Municipal? Na primeira esquina à direita. Que dia é hoje? 9 de setembro. Qual é a cor do céu? Depende: é dia ou noite? Está nublado, chuvoso ou ensolarado?
São perguntas claras, objetivas e diretas, com poucas variáveis e possibilidades de interpretação. Não é assim, porém, diante do cenário político dos últimos tempos.
Como não cabe aqui fazer uma retrospectiva, deixemos essa tarefa para os livros de História do Brasil que os alunos terão de estudar quando estiverem adquirindo os conhecimentos necessários à compreensão da vida, das relações de poder, da manipulação das ideias, da dominação de uns sobre os outros e da subserviência.
É com esses propósitos que personagens como Vorcaro, Trump, Putin e Netanyahu parecem querer tornar-se donos do mundo — ou, pelo menos, de parte dele.
E haja livros para relatar tantas “páginas infelizes de nossa história”!
Busco exaustivamente uma explicação que me permita compreender os fatos políticos com alguma clareza. Continuo, entretanto, com muitas dúvidas: quem ganha? Quem perde?
Ganha o candidato. Isso é indiscutível. E o país?
O que é imprescindível para os cidadãos? Como priorizar aquilo que eleva o Índice de Desenvolvimento Humano e atende às nossas aspirações mais evidentes por um Brasil próspero, feliz e bem governado?
Não podemos antecipar o resultado das próximas eleições, mas temos visto quanto as disputas entre os candidatos podem ser acirradas e desonestas.
O cenário atual parece antropofágico: Poderes e políticos “comem uns aos outros” na tentativa de romper o equilíbrio possível entre forças dinâmicas e influenciar os resultados das eleições.
A quantidade de absurdos apresentados em programas e discursos de governo é visível, audível e inacreditável.
Candidatos, cúmplices, cabos eleitorais e marqueteiros fazem de tudo — até aquilo que não deveria pertencer à política — para conquistar ou conservar cargos.
Diz-se que a política partidária é pendular: vai e vem como o pêndulo de um relógio. Essa renovação, contudo, nem sempre é real. Há quem pretenda perpetuar-se no cargo ou colocar em seu lugar alguém de confiança, da própria linhagem ou associado aos mesmos interesses.
A política brasileira guarda algo de familiar — e não apenas no sentido figurado. Antônio Carlos Magalhães, seus filhos e netos; José Sarney e seus descendentes; Tancredo e Aécio Neves; Jair Bolsonaro e seus filhos: famílias cujos integrantes exerceram ou ainda pretendem exercer cargos públicos, mantendo o poder entre os “mesmos de sempre”.
O problema é que não temos respostas simples. Trata-se de um jogo dinâmico, do qual participam muitas forças e no qual tantas regras são descumpridas que já não conseguimos confiar em nossos representantes — embora tenham sido escolhidos por nós.
O voto não deveria estar à venda. Ainda assim, pode ser comprado.
A honestidade não é atributo dos maus políticos. Maquiavel já conhecia muito bem as relações entre poder, virtude, conveniência e aparência ao escrever O Príncipe.
A escolha feita pelo voto nem sempre revela que conhecemos verdadeiramente os candidatos: seu caráter, seu preparo político e emocional para o cargo e sua disposição de cumprir aquilo que prometem enquanto representantes dos cidadãos.
Há uma enorme confluência de fatores: religião, poder do Estado, desinformação dos eleitores e abandono dos princípios e valores próprios de um país livre e soberano, como estabelece a Constituição brasileira.
Nem tão livre, nem tão soberano. A intensa movimentação dos últimos dias procura eliminar o adversário, o opositor, aquele que contraria determinados interesses, expõe condutas e apresenta acusações.
Quando alguém se torna um obstáculo, surgem manobras, vazamentos e ações imorais ou ilegais. Torna-se difícil compreender como o ser humano pode dizer-se guiado pela ética e, com tanta facilidade, contradizer essa base de sustentação.
Assim, banalizamos as atitudes de nossos escolhidos — alguns dos quais se apresentam até como escolhidos por Deus para nos conduzir pelos campos verdes e pelas terras raras de nosso país, sem entreguismo.
Aceitamos quase tudo desde que nos deem algum retorno; desde que tragam benefícios para nós, nossa família, nossos filhos, parentes, amigos, nossa tribo ou nosso clã. Deixamos de olhar para a sociedade como um todo. Não enxergamos a extensão do interesse coletivo, que deve alcançar todos os cidadãos, e não apenas determinados guetos.
O que se vê agora é o combate ao Supremo Tribunal Federal.
O Supremo não deve ser tratado como vilão. Como guardião da Constituição, tem a responsabilidade de assegurar a ordem constitucional e proteger o Estado Democrático de Direito.
Isso não significa que esteja acima dos demais Poderes ou que seus ministros sejam infalíveis. O próprio STF está submetido à Constituição, e suas decisões podem e devem ser criticadas dentro dos limites democráticos. Suas atribuições, entretanto, incluem julgar e impor limites constitucionais — o que contraria aqueles que desejam agir sem responsabilização.
Cuidado com as cortinas de fumaça, que não nos permitem enxergar a cor do céu.
Cuidado com as setas desviadas, que podem acabar com o mercado municipal — ou nacional — para torná-lo internacional.
Cuidado ao subir a escada e jogar fora os degraus: o dia de hoje veio do passado.
Cuidado com a fúria despolitizadora, esse lobo disfarçado de Deus, Pátria e Família.
Cuidado com os “salvadores da pátria”.
Todo cuidado é pouco quando a noite está escura e encobre a permanência do esperançoso azul.